KKKK * Para aqueles que vivem estas coisas do "ESCUTISMO" - segundo alguns - ou do "ESCOTISMO" - no entender de outros - certamente estarão "fartos" de tentar defender a "sua dama" com todo o poder de argumentação e presuação de que se mostre capaz o conhecimento que tenha da etimologia da palavra, porque não se torna tarefa fácil conseguir-se dizer com rigor ser cada um dos argumentistas senhor de uma verdade que não tem contestação possível, tal a lógica da argumentação... ou aumentamos a nossas dúvidas e não saímos deste círculo vicioso: ESCUTISMO ou ESCOTISMO? Em que ficamos?KKKK Segundo os "puristas" destas coisas da palavra escrita, "ESCOTISMO" é o conjunto de opiniões doutrinárias defendidas e definidas pelo filósofo e teólogo franciscano João Duns Escoto, escocês por nascimento, pois nasceu em Maxton ou Duns, na Escócia, em 1266 e faleceu em Colónia, na Alemanha, em 1308. Ensinou em Oxford e em Cambridge, em Paris e em Colónia. Defendeu, em filosofia, o realismo do conhecimento que parte do mundo sensível até atingir Deus, divergindo tanto de Averróis como de São Tomás, aproveitando-se, apesar de tudo, do contributo de Aristóteles e servindo-se da ontologia de Avicena para reforçar as suas teorias agostinianas. Deriva de Avicena o conceito de uma essência indiferente ao universal e ao particular. Foi beatificado em 07 de Maio de 1993. Os seus "discipulos" e fiéis seguidores das suas doutrinas, passaram a ser chamados de "Escotistas" ou "Escotinianos", ficando a sua doutrina conhecida por "ESCOTISMO".
KKKK Outros ainda afirmam ser o ESCOTISMO uma corrente filosófica defendida pelo teólogo irlandês João Erúgena Escoto, em que este separa a filosofia da teologia, principalmente através da reflexão sobre as relações entre Deus e a natureza. A este filósofo se deve o tratado "DE DIVISIONE NATURE".
KKKK Há ainda outro Escoto, de seu nome Tomás Escoto, também ele filósofo e teólogo do século XIV, denunciado como um perigoso herético pelo seu contemporâneo Álvaro Pais, na obra "Colírio da Fé" contra os infiéis" (1341-44). Pouco se sabe da vida e obra deste pensador, que seria, como Duns Escoto, de origem escocesa, havendo até quem avance a hipótese de se tratar do mesmo filósofo, apesar da diferença no nome. As suas heresias são minuciosamente descritas na citada obra de Álvaro Pais, que se encontram traduzidas para português. Terá sido professor na Universidade de Lisboa e supõe-se que terá sofrido a condenação à morte. Tal como o seu acusador, deveria ser um homem ousado e violento, tanto na linguagem como nas opiniões que defendia. O seu "averroísmo" (aristotelismo heterodoxo) foi condenado em Paris desde 1270 a 1277. Segundo o "Colírio", afirmava a eternidade do mundo: NÃO HOUVE PRINCÍPIO NEM HÁ-DE HAVER FIM. Quanto à fé, esta só podia ser defendida pela filosofia, condenando os livros sagrados. Terá mesmo afirmado que Aristóteles era superior a Cristo e mais sábio do que Moisés. Após a sua morte, era o nada que acolhia os homens, ou seja, as almas não existiam. Perante os dados conhecidos, quem será quem? João Duns Escoto não terá sido também Tomás Escoto? Não repugna nada aceitar a ideia de os dois serem um.
KKKK Na definição enciclopédica, ESCOTEIRO é aquele que viaja sem bagagem, pagando as despesas por "ESCOTE", que significa contribuir para uma despesa comum ou quota parte: PAGAR O SEU ESCOTE!
KKKK Escoteiro é também aquele que pratica o "Escotismo" na Associação dos Escoteiros de Portugal (AEP), que, fundada em 06 de Setembro de 1913, é a mais antiga Instituição "Escotista" Portuguesa e que tem sido, ao longo dos longos anos da sua existência, motivo de "estudo" do significado do termo "ESCOTEIRO", dado aos seus elementos, especialmente quando em confronto com o termo "ESCUTA" ou "ESCUTEIRO", usado pelo Corpo Nacional de Escutas (CNE).
KKKK Quando se comemoram os 100 anos do ESCUTISMO, é de bom tom colocar-se à apreciação das pessoas de boa vontade o tema ESCUTISMO versus ESCOTISMO, para que se faça a justiça de homenagear aqueles que, neste centenário, deram o melhor de si na implementação do método deixado pelo Fundador - Lord Robert Smith Stevenson Baden-Powell of Gilwell.
KKKK ESCUTA é aquele que escuta, que está atento, que está ALERTA... ESCOTEIRO é aquele que viaja sem bagagem... o Escuteiro tem necessidade do que a natureza lhe oferece... o Escuta e o Escoteiro vivem segundo o espírito de Baden-Powell.
KKKK Iremos continuar a falar de ESCUTEIROS e ESCOTEIROS, mas apenas porque queremos falar dos 100 anos do Escutismo no mundo, visando o segundo centenário, que está no horizonte daqueles que acreditam que O ESCUTISMO NÃO SE DISCUTE! VIVE-SE!
1 comentário:
Escoteiro – Porque preferimos esta grafia
Os adeptos do método educativo, concebido por Baden-Powell, conhecido na Grã-Bretanha por Scouting, têm sido designados em Portugal por scouts, escoteiros, adueiros, escutas e escuteiros (cremos ser esta a ordem cronológica do seu aparecimento).
Quando este movimento em terras lusitanas não fora ainda além da incipiência, à falta de melhor, servimo-nos do termo scout, solução aceitável, visto que, em muitos países, que não falam a língua inglesa, ainda é hoje o termo usado. Todavia, em Portugal, os responsáveis do nosso movimento, honra lhes seja, não se contentaram com a simples adopção do vocábulo estrangeiro, como prova, em 1911, o testemunho irrecusável e insuspeito do comandante Álvaro de Melo Machado, pioneiro do escotismo em terras de Portugal e seu dirigente desde as primeiras horas. Procuraram, procuraram e surgiu-lhes a palavra ajustada. Não era qualquer neologismo, mas vocábulo antigo e de fortes tradições: escoteiro. A Língua Portuguesa é, sem sombra de dúvidas, realmente rica. Até neste caso ofereceu a palavra ideal, quase exacta, em que ocorrem mesmo as três letras radicais do scout inglês: SCOT, e com um significado muito ajustado ao do termo Inglês.
Que melhor solução foi encontrada noutro idioma?Que quer dizer escoteiro? Dizem os dicionários: "pioneiro; o que não leva mochila ou alforge; que viaja ligeiro; que viaja, pagando escote (aquilo que compete a cada um numa despesa comum) pelo caminho para comida e dormida; explorador". 0 vocábulo teve pronta e geral aceitação. Pois não. Tinha mesmo caído do céu!
Logo, em 1913, surge no próprio nome da associação: Associação dos Escoteiros de Portugal, que então se formou. Durante mais de duas décadas, tanto escoteiro como escotismo singraram. Foram usados tanto em Portugal, como nas antigas colónias e passaram ao Brasil, onde se radicaram facilmente. No nosso país, homens de elevada categoria intelectual, como o Dr. Sá Oliveira, pedagogo e professor de Latim, e o Dr. João de Barros, também emérito pedagogo, celebrados dirigentes da nossa Associação escotista, carinhosamente utilizaram a grafia das duas palavras com o, a qual nunca lhes mereceu o menor reparo.
Até que, em 1923, se produziu uma dissidência no movimento. Alguns dirigentes meteram ombros à criação de nova associação, reservada a elementos da confissão católica apostólica romana, isto a contra-gosto dos propósitos ecuménicos de Baden-Powell e até da própria AEP, visto que, dalguma maneira, se ergueu uma barreira que, embora ténue, veio impedir uma franca e desinibida confraternização com tantos valorosos irmãos escoteiros que militam na outra Associação. Ciosos dos objectivos de total cisão, esses dirigentes repudiaram a palavra escoteiro e retrocederam para o termo scout: Corpo Nacional de Scouts, se chamou a novel Associação. Mas o termo scout era, pelo menos, incómodo, face ao portuguesismo de escoteiro. Assim, tentou-se um substituto e, por influência do Francês, surgiu escuta. Isto em meados da década de 30.
Gera-se então um problema artificialmente criado: Como aos escutas não assentava bem a palavra escotismo, vá de se transmudar num neologismo (escutismo) a palavra que o povo consagrou. Logo, apressados, apareceram filólogos a proclamar que, dado scout ter origem no termo francês écouter, do latim auscultare, donde provém o escutar português, a grafia escutismo seria preferível a escotismo, para o que se alhearam de um argumento de extrema importância em questões desta natureza: a consagração de escoteiro e escotismo pelo uso, isto ao longo de mais de vinte anos! Enfim, filólogos muito cientes dos problemas das metamorfoses linguísticas, é certo, mas ignorantes, por completo, da história do nosso movimento e dos ponderosos e poderosos argumentos que aconselharam a escolha de escoteiro e escotismo. Em socorro da inovação, veio ainda o Acordo Ortográfico Luso - Brasileiro de 1945, que perfilhou esta singular solução: em Portugal. passava a escrever-se escuteiro e escutismo enquanto no Brasil continuava a grafar-se escoteiro e escotismo! Pois se os Brasileiros até pronunciam escóteiro ou escôteiro. Aqui, escotismo ficaria reservado para denominar as teorias de John Duns Scoutus ou de Johannes Scoutus Erigena, doutrinas que não são hoje mais do que despojos, sepultados em livros. Só que... Só que, no caso do movimento escotista, o vocábulo escuta não foi uma escolha feliz. E por vários motivos. Em primeiro lugar, porque escuta não traduz capazmente o inglês scout. Disso se aperceberam os Espanhóis, os Italianos e os Franceses, que não recorreram as palavras que naturalmente existem nos seus idiomas correspondentes ao inglês scout, antes se decidiram respectivamente por explorador, esploratore e éclaireur para denominarem os membros do movimento escotista dos seus países. Escuta, em português, envolve uma ideia eminentemente de imobilidade: o que está a escuta, o que espia, lugar onde se escuta, o meio de se escutar. Ao passo que o inglês scout traz um vincado carácter de deambulação: soldado, navio ou avião enviado a espiar as forças ou movimentos do inimigo; pessoa enviada a sondar o valor de um desportista; explorador. Isto é, missões francamente activas em oposição a escuta que é eminentemente passiva. Estamos mesmo em crer que, se fosse esta acepção do termo inglês, Baden-Powell nunca teria escolhido Scouting para denominar as suas actividades, até mesmo as anteriores à criação do escotismo, sabido como é, que a ideia do movimento lhe era profundamente cara. Em segundo lugar, porque a palavra escuta nunca se popularizou. O povo português desconhece-a com essa acepção, não obstante ela ter surgido há quase meio século. Até mesmo os membros do próprio Corpo Nacional de Escutas não lhe são fiéis. Talvez não seja ousadia afirmar que o termo escuta há muito teria sido esquecido e enterrado, por impróprio e impopular se não persistisse na denominação da associação – Corpo Nacional de Escutas. Em suma: nós, membros da Associação dos Escoteiros de Portugal, e os nossos irmãos brasileiros somos, e continuaremos a ser, genuinamente Escoteiros. E praticamos o Escotismo. E estamos em boa companhia, como a do distinto filósofo Prof. José Pedro Machado, que se pronunciou favoravelmente quanto a escoteiro e escotismo para nos designar e ao nosso movimento. Dirão alguns: mas não "joga" bem escutas a praticarem o escotismo. Talvez tenham razão. Não temos nada com isso, porém. É problema que apenas diz respeito aos que enveredaram pelo novo movimento. Que sejam, pois, eles a resolverem-no. Se o quiserem, claro.
[adaptado de um aqrtigo do jornal Sempre Pronto]
Canhotas
Carlos
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